← ana vanzin Iconocracia · Apresentação notas
Tese de doutorado · PPGD/UFSC

Iconocracia

a alegoria feminina na história da cultura jurídica

Do texto à imagem · da lei que subordinou à alegoria que glorificou

Orientação · Prof. Arno Dal Ri Júnior

Marca Iconocracia — alegoria velada em anel duplo de ouro
Ana Vanzin · Ius GentiumPPGD · UFSC · MMXXVI
A inquietação inicial

Por que o Estado e o Direito tantas vezes aparecem com rosto de mulher?

O paradoxo central

Uma presença que se sustenta sobre uma ausência

Presença · símbolo

A ordem aparece com rosto de mulher.

Justiça, Liberdade, República, Pátria, Marianne, Britannia, Germania, Columbia — o feminino encarna soberania, virtude e lei em moedas, selos, brasões e arquiteturas forenses.

Ausência · sujeito

As mulheres reais ficam fora da ordem.

No mesmo período, são excluídas do voto, da capacidade civil plena e da fraternidade cívica. Reverencia-se o corpo; cala-se o sujeito histórico que ele conota.

De onde eu venho · dissertação de mestrado · 2024

“United by marriage, chained by nationality”

A nacionalidade dependente da mulher casada — do Código Napoleão (1804) à Convenção da ONU sobre a Nacionalidade da Mulher Casada (1957).

Unidade da família

Ao casar com estrangeiro, a mulher perdia a própria nacionalidade e assumia a do marido — automaticamente, sem consentimento.

Ius sanguinis a patre

O sangue que transmite o vínculo nacional é o do pai. A mulher é condutora, nunca origem, da pertença política.

Apêndice conjugal

Por mais de um século a mulher figura na lei da nacionalidade como extensão do marido — sujeito tutelado, não titular pleno.

Mestrado em Direito · Ius Gentium · PPGD/UFSC · 1804–1957

A continuidade

A mesma mulher, dois registros do poder

Mestrado · o texto

A lei que subordinou

A mulher como sujeito acorrentado: nacionalidade dependente, capacidade tutelada, voz cívica negada.

mesmo
arranjo
Doutorado · a imagem

A imagem que glorificou

A mulher como alegoria soberana: Justiça, Liberdade, República — exaltada como símbolo da ordem que a excluía.

Quanto mais ela brilha na moeda, menos ela existe no código — a glória e o silêncio se completam.

Pergunta de pesquisa

Como as alegorias femininas moldam a autoridade legal e a percepção do poder estatal entre os séculos XIX e XX?

França · Reino Unido · Alemanha · Estados Unidos · Bélgica · Brasil — o que os padrões de circulação, adaptação e contestação dessas imagens revelam sobre a cultura jurídica e suas hierarquias de gênero.

Hipótese

A presença reiterada da alegoria feminina constitui um regime iconocrático — e prolonga, em imagem, o contrato sexual.

A ordem política se apresenta com rosto de mulher enquanto as mulheres reais permanecem fora da fraternidade civil. À dimensão visual desse pacto, a tese dá o nome de Contrato Sexual Visual.

I

Moldura teórica

Iconocracia, contrato sexual visual e a colonialidade do ver.

Motivo: a balança estipulada
O conceito

Iconocracia: a organização do visível

“A organização do visível que provoca uma adesão que se poderia chamar submissão ao olhar.”

De Mondzain (economia teológico-política da imagem) a Goodrich (emblemas jurídicos, “visiocracia”). A tese desloca o conceito para a cultura jurídica moderna.

Justitia velada, estipulada, em anel duplo de ouro
Iustitia velata · MDCCCXIX–MCMXX
As contribuições originais

Três conceitos para nomear o invisível

01

Contrato Sexual Visual

A dimensão visual do contrato de Pateman: reconhecimento simbólico ao feminino, exclusão cívica das mulheres reais.

02

Feminilidade de Estado

O Estado administra o corpo feminino como recurso icônico — esvaziado de subjetividade, convertido em infraestrutura de afeto público.

03

Contrato Racial Visual

A branquitude constitutiva da alegoria “universal”: a transferência transatlântica instala um padrão racializado de representação.

Marco teórico

Uma constelação, não uma linhagem

Marina Warner
alegoria como “vaso vazio”
Carole Pateman
o contrato sexual
Marie-José Mondzain
iconocracia / economia da imagem
Erwin Panofsky
os três níveis iconológicos
Walter Benjamin
alegoria-ruína · agora
Aby Warburg
Pathosformel · Nachleben
Maurice Agulhon
Marianne, emblema de Estado
Nietzsche · Bourdieu
ressentimento · violência simbólica
Yuval-Davis · O’Donoghue
nação, útero e Estados de gênero
A tipologia

Três regimes iconocráticos

Fundacional

Sacrificial

Maternidade, dor e sangue. A nação-mãe que pare e protege o povo.

Normativo

Jurídico

Justiça, Liberdade, República. Selos, moedas, brasões, arquitetura forense.

Militar

Imperial

Vitória, guerra e heroísmo cívico. O arquétipo reativado em conjunturas de exceção.

II

Método e corpus

Métodos mistos sequenciais: ler a imagem com Panofsky, medi-la com estatística.

Motivo: o olho jurídico
A base empírica

O corpus iconográfico

145
itens catalogados
6
países · civil & common law
8
suportes materiais
88%
codificação completa

Moeda · selo · monumento · arquitetura forense · gravura · frontispício · papel-moeda · cartaz — versionados em repositório auditável e reprodutível.

O conceito operacional

Endurecimento: dez indicadores

o grau de purificação simbólica da figura feminina · escala 0–3

01
Desincorporação
02
Rigidez postural
03
Dessexualização
04
Uniformização facial
05
Heraldicização
06
Enquadramento arquitetônico
07
Apagamento narrativo
08
Monocromatização
09
Serialidade
10
Inscrição estatal
Desenho metodológico

Ler com Panofsky, medir com estatística

QUAN

Padrões no corpus

Os 10 indicadores de endurecimento medidos em todos os itens; estatística sobre regime e suporte.

QUAL

Iconologia dos casos

Panofsky em três níveis via protocolo IconoCode + ICONCLASS, nos casos que a estatística destaca.

Síntese

Montagem warburguiana

O Atlas Iconocrático articula visualmente o que a análise textual isolada não alcança.

III

Resultados

O que os números dizem sobre os regimes.

Motivo: a corrente
Achados preliminares

Padrões iconométricos

9/10

indicadores diferem entre regimes (Kruskal-Wallis · Dunn, p < 0,05)

0,49

R² — regime e suporte predizem o endurecimento (regressão ordinal)

MCA

famílias alegóricas que circulam pelo Atlântico

Confiabilidade inter-codificadores: Alpha de Krippendorff (ordinal), subamostra de 30 itens · prevista para a qualificação.

IV

Estudos de caso

A estrutura se realiza no corpus arquivístico real.

Motivo: a coroa

Marianne: da barricada ao selo

França · Normativo

A República amável e encarnada vai sendo convertida em emblema serial e anônimo — o feminino coletivo contra o retrato viril do chefe (Agulhon).

Félicien Rops, Respublica Amabilis, 1871
Rops · 1871
Moitte, Liberdade, 1792
Moitte · 1792
Clésinger, República, 1900
Clésinger · 1900
Ceres, moeda de 5 francos, 1849
Ceres · 5 francos · 1849

Marianne encarnada: a alegoria feita carne

França & Brasil · Feminilidade de Estado

Do busto de Bardot (1969) à irmã tropical na cédula — até o selo de 2013, desenhado a partir de Inna Shevchenko, do FEMEN: o corpo que protestou vira o rosto oficial do Estado.

Busto oficial de Marianne em Brigitte Bardot, 1969
Bardot · busto · 1969
Cédula brasileira de 1 real, efígie da República
Brasil · 1 real
Selo francês de Marianne, 2013
Selo · 2013
Inna Shevchenko, FEMEN, modelo do selo de 2013
Inna · FEMEN

“Talvez a República nunca tenha sido esculpida em mármore — talvez sempre tenha sido escrita na pele.”

Britannia sentada, pêni britânico de 1912
Britannia · One Penny · 1912
Reino Unido · Militar-imperial

Britannia e Thatcher: a alegoria encarnada

“Thatcher trouxe Britannia à vida.” — Marina Warner

A mulher real só é admitida no centro do poder quando se deixa ler como emblema da nação — domesticidade e belicismo na mesma figura.

Columbia e a Justiça no Capitólio

Estados Unidos · Normativo

A liberdade sentada e a nota “Educational”: o corpo feminino como infraestrutura pedagógica do Estado — a Feminilidade de Estado em estado puro.

Seated Liberty, moeda americana de 1840
Seated Liberty · 1840
Nota Educational Series, 1896
Educational Series · 1896

A República brasileira e a iconocracia tropical

Brasil · Contrato Racial Visual

A alegoria neoclássica branca numa nação negra e mestiça; ao lado, o monumento colonial: a branquitude constitutiva da alegoria “universal”.

Décio Villares, alegoria da República
Villares · República
Moeda de 1000 réis, 1906
1000 réis · 1906
Escultura da Justiça no STF, 1961
Justiça · STF · 1961
Monumento colonial belga no Congo, 1921
Bélgica · Congo · 1921

Justitia vendada e a balança como arma

Normativo · transnacional

“Cega não por imparcialidade, mas porque não se enxerga no espelho do poder.”

Bruegel, Justitia, 1559
Bruegel · 1559
Justitia de Esslingen, 1589
Esslingen · 1589
Justitia e Prudentia, Reino Unido
Justitia & Prudentia
Contra-alegoria

As imagens são ruínas — e as ruínas podem ser reativadas.

Feministas, abolicionistas e trabalhadores subverteram e ressignificaram os símbolos do Estado — e a disputa pela alegoria continua viva no presente. Descrever a dominação é o primeiro gesto para contestá-la.

A síntese

O Atlas Iconocrático

Oito painéis warburguianos. O sentido nasce no Zwischenraum — o intervalo entre as imagens. Montar imagens é argumentar.

IGênese
IIJustitia
IIIDomesticação
IVEndurecimento
VPedra e Bronze
VIBalança e Império
VIIBranquitude
VIIIFissuras
Onde a pesquisa está

Dois trilhos, uma convergência

2026
Consolidação do corpus e do método
Trilho A teórico · Trilho B empírico, em paralelo
nov 2027
Qualificação
Partes I e II completas · análise quantitativa avançada · Alpha de Krippendorff
2028–29
Atlas, conclusão e revisão integral
Convergência dos dois trilhos nos Capítulos 8–9
mar 2030
Defesa
Nove capítulos · quatro partes
Para o debate
  1. 1Se o Direito governa pelo olhar, pode a história do direito ser só história de textos?
  2. 2Quantificar a imagem enriquece ou trai a leitura iconológica?
  3. 3O Contrato Sexual Visual se sustenta como conceito jurídico?
Motivo: o sol
Ana Vanzin
Ius Gentium · PPGD/UFSC
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