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materiais para estudantes

Metodologia

Métodos, ferramentas e materiais de pesquisa em história do direito e iconografia jurídica. Um guia prático para quem está começando — da formulação da pergunta à gestão das fontes.

1. Por onde começar

Toda pesquisa jurídica começa com uma pergunta. Mas onde você procura a resposta? Este guia cobre métodos que servem a qualquer pesquisa em direito — da análise normativa à revisão sistemática — e dedica atenção especial a duas frentes que a formação jurídica tradicional costuma negligenciar: a dimensão histórica do fenômeno jurídico e sua dimensão visual. A mesma lei que você lê no código também vive na imagem — na moeda, no frontispício, na arquitetura do tribunal.

Antes de escolher o método, é útil delimitar o que se quer saber. Três perguntas ajudam: (1) qual o recorte temporal e geográfico? (2) que tipo de fonte vou examinar — textos legais, imagens, decisões judiciais, tratados? (3) qual a minha hipótese de partida, mesmo que provisória?

2. Métodos de pesquisa em história do direito

A história do direito mobiliza diferentes métodos, dependendo da fonte e da pergunta. Abaixo, uma visão geral dos principais.

Método 1

Análise normativa e dogmática

Estudo da letra da lei, sua estrutura interna e seus conceitos. Em perspectiva histórica, interessa não apenas o que a lei diz, mas como suas categorias se transformam ao longo do tempo.

Método 2

Método histórico-jurídico comparado

Comparação sistemática entre ordenamentos jurídicos de diferentes países ou tradições, num mesmo recorte temporal. Essencial para identificar padrões transnacionais e variações locais.

Método 3

Método indiciário e micro-história

Inspirado em Carlo Ginzburg, consiste em seguir pistas marginais — um detalhe numa gravura, uma palavra repetida num processo — para revelar estruturas profundas que o discurso oficial esconde.

Método 4

Métodos mistos e análise quanti-qualitativa

Combinação de codificação sistemática de fontes (com indicadores, escalas ordinais, análise estatística) com interpretação qualitativa aprofundada. Útil quando o corpus é extenso demais para análise puramente artesanal.

3. Análise iconográfica e iconológica

Para quem trabalha com imagens jurídicas — alegorias da justiça, representações do Estado, frontispícios de códigos, monumentos forenses — o método de referência é o de Erwin Panofsky, que distingue três níveis de leitura.

Nível 1

Pré-iconográfico: descrição primária

O que se vê, sem interpretação: figuras, posturas, objetos, cores, texto inscrito, suporte material. É o inventário factual da imagem.

Nível 2

Iconográfico: identificação convencional

O que a imagem significa dentro de uma tradição: esta figura com balança e venda é a Justiça; esta mulher com barrete frígio é a República. Mobiliza repertórios culturais compartilhados.

Nível 3

Iconológico: significado profundo

O que a imagem revela sobre a mentalidade de uma época, as relações de poder, as estruturas sociais que a produziram. Por que a Justiça é representada como mulher?

«O espaço entre as imagens é onde se deve pensar.» — Aby Warburg, sobre o Atlas Mnemosyne

Além de Panofsky, a tradição warburguiana oferece ferramentas poderosas: o conceito de Pathosformel (fórmula de pathos — gestos que migram entre épocas e culturas), a ideia de Nachleben (sobrevivência da imagem antiga em contextos novos) e a montagem como método (dispor imagens lado a lado para que o sentido emerja do intervalo).

Para classificação iconográfica sistemática, o sistema ICONCLASS (Henri van de Waal, 1973–1985) oferece uma taxonomia hierárquica de temas e motivos visuais, com códigos específicos para iconografia jurídica e política.

O dicionário alegórico de Ripa

A referência canônica para a tradição alegórica ocidental é a Iconologia de Cesare Ripa (1593, com edições ilustradas a partir de 1603). Ripa organiza um verdadeiro 'dicionário alegórico' com índices de elementos — animais, objetos, plantas, cores — que permitem identificar virtudes, vícios e conceitos abstratos. Para o pesquisador de iconografia jurídica, Ripa oferece uma gramática prescritiva de como representar a Justiça, a Paz e outras figuras. Atenção: Ripa não descreve imagens existentes — ele prescreve como representar conceitos.

Dados como capta: a não-neutralidade do registro

Uma contribuição importante das humanidades digitais críticas (Drucker; D'Ignazio & Klein) é a ideia de que dados não são 'coletados' passivamente — são capta, isto é, 'tomados e construídos' a partir de decisões interpretativas situadas. Toda codificação de uma imagem — atribuir gênero, classificar postura, pontuar atributo — é uma intervenção, não uma extração neutra. A implicação prática: separe descrição de interpretação, registre quem codifica e em que condições, documente incerteza e desacordo.

4. Ferramentas digitais

A pesquisa em humanidades se beneficia enormemente de ferramentas digitais bem escolhidas. Abaixo, as que utilizo e recomendo.

Zotero

Gerenciador de referências gratuito. Captura metadados, organiza coleções, gera citações em ABNT. Essencial para integridade bibliográfica.

Obsidian

Notas interligadas em Markdown, com grafo de conexões. Ideal para fichamentos e desenvolvimento de argumentos.

Git & GitHub

Versionamento de texto, dados e código. Permite rastrear alterações e publicar dados em ciência aberta.

Python (pandas, scipy)

Análise de dados, estatística, visualização. Útil para codificar corpus e testar hipóteses.

5. Acervos digitais para iconografia jurídica

Estes acervos oferecem acesso gratuito a imagens de alta resolução, muitas em domínio público, com metadados ricos e, em vários casos, APIs e protocolos IIIF para pesquisa programática.

  • Gallica gallica.bnf.fr Biblioteca Nacional da França. Milhões de documentos digitalizados, com suporte IIIF.
  • Europeana europeana.eu Portal agregador de acervos digitais europeus. Pesquisa cruzada entre museus, bibliotecas e arquivos.
  • Library of Congress loc.gov Acervo digital americano: fotografias, gravuras, mapas, cartazes. Excelente para iconografia política e jurídica dos EUA.
  • Brasiliana Fotográfica brasilianafotografica.bn.gov.br Portal da Biblioteca Nacional com iconografia brasileira dos séculos XIX e XX.
  • Numista en.numista.com Catálogo colaborativo de moedas e cédulas do mundo todo, com imagens e metadados.
  • British Museum britishmuseum.org/collection Acervo online com milhões de objetos. Forte em numismática e gravura.
  • Deutsche Digitale Bibliothek deutsche-digitale-bibliothek.de Portal alemão de acervos digitalizados. Relevante para iconografia jurídica e política germânica.
  • Smithsonian si.edu Acervo diversificado: numismática, arte, história americana.

6. Estratégias de busca em bases de dados

A escolha dos termos de busca é tão importante quanto a escolha da base. Abaixo, uma tabela de termos produtivos em português e inglês, testados no Catálogo de Teses da CAPES e no sistema HOLLIS de Harvard.

CAPES (português)HOLLIS (inglês)
"alegoria feminina""Justitia allegory blindfolded iconography"
"alegoria república feminina""Marianne Britannia national allegory female republic"
"representação da justiça""female allegory law justice iconography"
"iconografia jurídica""numismatics allegory female coins nation"
"cultura visual direito""law and visual culture iconography"

Dica prática: o tema da iconografia jurídica é inerentemente interdisciplinar. As teses mais próximas costumam estar em programas de História, Letras e Filosofia — não necessariamente em Direito. Busque cruzando disciplinas. E na academia anglófona, o campo 'law and visual culture' é muito mais desenvolvido; consulte periódicos como Law and Critique, Polemos e Yale Journal of Law and the Humanities.

Booleanos e sintaxe por base

Operadores booleanos são a gramática da busca acadêmica: AND restringe (todos os termos devem aparecer), OR amplia (qualquer termo serve), NOT exclui. Use aspas para frases exatas ("female allegory"), asterisco para truncar radicais (allegor* encontra allegory, allegorical, allegories) e parênteses para agrupar: (Justitia OR Justice) AND (blindfold* OR scale*).

BaseTags de campo
PubMed[Title], [Title/Abstract], [MeSH], [Author], [Publication Date]
arXivti:, au:, cat: (ex: cat:q-bio)
Semantic Scholartitle:, author:, year:, journal:
Google Scholarsource:, author:, intitle: (sem API oficial; usar com cautela)
CAPESBusca simples (campo único); múltiplas buscas com termos variados

Citation chaining e snowball sampling

Duas técnicas para expandir sua bibliografia: (1) forward citation — identifique artigos que citam um trabalho seminal ('Cited by' no Google Scholar); (2) backward citation — extraia as referências e identifique as citadas por múltiplos estudos. Snowball sampling: parta de 3–5 artigos-chave, extraia referências, leia as de alta sobreposição, repita.

7. Normas e boas práticas

Citações e referências

No Brasil, a norma vigente é a ABNT NBR 6023:2025. Autoria em caixa alta, título em itálico, edição a partir da segunda, local e editora, DOI quando disponível.

Integridade de citações

Verifique toda referência antes de citar. Localize a passagem exata na fonte. Se usar IA generativa, declare — e nunca peça que invente referências. Prefira o Zotero.

Ciência aberta e reprodutibilidade

Sempre que possível, publique dados de pesquisa, esquemas de codificação e scripts em repositórios abertos. A pesquisa ganha credibilidade quando é auditável.

Codebooks e confiabilidade entre codificadores

Se seu projeto envolve codificar dezenas ou centenas de imagens com atributos controlados: (1) separe descrição de interpretação — a ambiguidade do ícone não se resolve com consenso forçado; (2) estabeleça protocolo de confiabilidade entre codificadores — a divergência é um dado, não um erro; (3) documente a fonte da imagem (edição, suporte, repositório); (4) trate o 'dado negativo' (ausência) como informação substantiva — em iconografia estatal, o que não aparece também significa.

8. Revisão sistemática de literatura

Uma revisão de literatura não é um fichamento encadeado — é uma síntese crítica organizada tematicamente. O padrão-ouro é o protocolo PRISMA, que estrutura o processo em fases documentadas e reprodutíveis.

PICO: definir a pergunta

Para humanidades, adapte o PICO: População (corpus, período, tradição), Intervenção (método, lente teórica), Comparação (contra qual contraste?), Outcome (padrões, lacunas, divergências).

Triagem em três fases

O PRISMA estrutura a seleção em três camadas: (1) título — exclua o obviamente irrelevante; (2) resumo — aplique os critérios com rigor; (3) texto completo — obtenha e leia os textos. Documente os motivos de exclusão em cada fase.

Avaliação de qualidade dos estudos

Nem toda fonte tem o mesmo peso. Ferramentas padronizadas: Cochrane Risk of Bias, Newcastle-Ottawa Scale, AMSTAR 2. Para humanidades, adapte: avalie a reputação da fonte (peer-reviewed, editora universitária), a densidade do aparato crítico e a transparência metodológica. Classifique cada estudo como alta, moderada, baixa ou muito baixa qualidade.

Síntese temática, não sumária

O erro mais comum é organizar por estudo ('Fulano diz X. Beltrano diz Y'). O correto é organizar por tema: agrupe 3–5 grandes temas e dentro de cada um sintetize o que múltiplos estudos mostram, comparando convergências e divergências. Exemplo: 'A venda da Justiça é interpretada de três maneiras na literatura: como imparcialidade (Smith, 2018; Jones, 2021), como cegueira estrutural (Warner, 1996) e como dispositivo de gênero (Resnik & Curtis, 2011).'

Leituras recomendadas

GINZBURG, Carlo. Sinais: raízes de um paradigma indiciário. In: Mitos, emblemas, sinais. Trad. Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. p. 143–179.

PANOFSKY, Erwin. Significado nas artes visuais. Trad. Maria Clara F. Kneese e J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 1976.

WARBURG, Aby. Histórias de fantasma para gente grande. Trad. Lenin Bicudo Bárbara. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Atlas, ou a gaia ciência inquieta. Trad. Renata Correia Botelho e Rui Pires Cabral. Lisboa: KKYM, 2013.

HESPANHA, António Manuel. Cultura jurídica europeia: síntese de um milênio. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2005.

CRESWELL, John W.; PLANO CLARK, Vicki L. Designing and conducting mixed methods research. 3. ed. Thousand Oaks: SAGE, 2018.

RIPA, Cesare. Iconologia. Ed. Sonia Maffei, testo stabilito da Paolo Procaccioli. Torino: Einaudi, 2012. [original de 1593, 1ª ed. ilustrada 1603]

RESNIK, Judith; CURTIS, Dennis. Representing justice: invention, controversy, and rights in city-states and democratic courtrooms. New Haven: Yale University Press, 2011.

D'IGNAZIO, Catherine; KLEIN, Lauren F. Data feminism. Cambridge: MIT Press, 2020.

WARNER, Marina. Monuments and maidens: the allegory of the female form. London: Vintage, 1996.

HAYAERT, Valérie. The paradoxes of Lady Justice's blindfold. In: The art of law: artistic representations and iconography of law and justice in context, from the Middle Ages to the First World War. Cham: Springer, 2018. p. 201–232. (Ius Gentium, v. 66)

STELLA, Marcello. Off her throne and unarmed: the humble, yet noble visage of Justice and her restless servants. Polemos, v. 13, n. 1, p. 109–125, 2019.